terça-feira, 30 de junho de 2020

Fake news e neofascismo no despertar tecnológico da ideologia

Por Wécio P. Araújo

“A especialização das imagens do mundo se realiza no mundo da imagem autonomizada, no qual o mentiroso mentiu para si mesmo.”
Guy Debord, em A Sociedade do Espetáculo

Tão profunda é a integração entre a vida biológica e a vida artificial na era digital, que tem se tornado cada vez mais difícil distinguir onde termina o humano e onde começa a máquina (e vice-versa), no que diz respeito às formas dos indivíduos vivenciarem a sua realidade. Por meio da computação, a máquina se tornou pervasiva. Este termo é oriundo do inglês pervasivee traduz o conceito de computação ubíqua, formulado pelo cientista Mark Weiser na década de 1990, para descrever uma situação na qual o computador está embarcado no ambiente de maneira imperceptível ao usuário. Por sua vez, ubiquidade significa dizer que algo é onipresente ao ponto de vivenciarmos aquilo de maneira que nem sequer percebemos. Isto só é possível graças ao algoritmo digital. Este se trata de uma receita lógica que diz como um programa de computador ou de inteligência artificial deve executar uma tarefa de maneira a imitar e/ou interagir com o comportamento humano, como se fosse uma ideia com vida própria. Junto ao algoritmo, a digitalização é o processo por meio do qual um dado ou sinal analógico é transformado em código digital. Em síntese, temos então o processo de digitalização algorítmica, tanto do conteúdo objetivo das relações sociais, como das formas subjetivas dos indivíduos vivenciarem este conteúdo. No entanto, importa ressaltar que a digitalização algorítmica não se reduz apenas a uma expressão tecnológica de segundo plano, mas se trata de um processo que aponta para a formação dos indivíduos; o algoritmo digital não apenas cerca e envolve a vida das pessoas, mas também as preenche modelando a sua subjetividade. Portanto, o caráter pervasivo da tecnologia digital diz respeito a este processo no qual o indivíduo embarca de maneira que a digitalização se faz determinante de modo onipresente e invisível em seu modo de ser. Trata-se de uma nova forma de materialidade do ser humano enquanto um ser social, que se expressa diretamente ligada à maneira da consciência humana vivenciar subjetivamente, por meio da ideia, o conteúdo da sua realidade de maneira digitalizada, seja na política, na produção, no consumo, na comunicação, etc.

Mitch Blunt / Getty Images / Ikon Images

No mundo atual, como uma extensão do ser humano produzida a partir do processo de trabalho, a tecnologia favorece ideologicamente a dominação social capitalista em sua ubiquidade à medida que afasta o pensamento crítico mais do que o promove junto às massas, fazendo prevalecer a pura positividade do encantamento e da naturalização daquilo que não é natural, mas, ao contrário, é socialmente construído. Nessa dialética entre o velho (analógico) e o novo (digital), alcançamos o momento que denomino como o despertar tecnológico da ideologia, e que pode ser assim resumido: a realidade humana, por meio da sua digitalização algorítmica, adquire novas expressões nas formas subjetivas da consciência vivenciar por meio das ideias, o seu conteúdo objetivo na constituição daquilo que os indivíduos reconhecem como real. Isto acontece sob determinações que comparecem ao longo de todas as relações sociais, desde o chão de fábrica até o trânsito, a sala de estar, o escritório, o shopping, a sala de aula e a urna eletrônica.

Uma amostra emblemática e muito relevante de como essas tecnologias favorecem ideologicamente a dominação social, pode ser encontrada no nocivo fenômeno das fake news; termo em inglês para dizer “notícias falsas” produzidas e veiculadas digitalmente. A questão que venho analisar aqui é a seguinte: as fake news se tornaram um importante conduto de passagem ideológico da alienação política, de maneira que a realidade social é vivenciada de forma digitalmente naturalizada, fazendo prevalecer o entorpecimento sobre qualquer possibilidade, por mínima que seja, de uma consciência crítica e mais comprometida com alguma noção ética de verdade. Nesta direção, podemos partir do seguinte argumento: na era da digitalização algorítmica, o virtual é vivenciado como real. Este processo produz graves determinações políticas a partir das fake news, à medida que a mentira facilmente se impõe como uma “verdade” que abrange a sua própria falsidade em uma velocidade jamais concebida no antigo mundo analógico e off-line. Neste contexto, destaco três determinações que definem o espaço cibernético como terreno fértil para a proliferação das fake news: i) O real se afirma para a consciência sendo vivenciado, via de regra, pelo sensacionalismo do imediatismo digital e sua replicação viral a partir de uma linguagem imagética estabelecida por meio de uma enxurrada, sem pausa, de estímulos visuais nesta sociedade do espetáculo, na qual os indivíduos se tornaram apêndices das suas telas de mão, mais conhecidas como smartphones; ii) A realidade se estabelece digitalmente por meio de conteúdos que per se, são vivenciados sob uma lógica que não permite qualquer contraponto racional, posto que a produção da notícia falsa se estabelece como produção de narrativas irracionais e absolutas; iii) A razão soçobra abandonada em algum lugar deste abismo estabelecido entre, de um lado, os fatos em sua pluralidade de narrativas, e de outro, a forma unilateral como estes são vivenciados subjetivamente pelos indivíduos orientados unicamente pelas fake news. Não obstante, façamos uma breve reflexão crítica articulando essas determinações em três breve notas, incluindo alguns exemplos da vida contemporânea.

I

No cotidiano, o despertar tecnológico da ideologia se estabelece através de um modo de ser determinado pela busca frenética por novos estímulos imagéticos. Como nos alertaram os filósofos Guy Debord e Christoph Türcke, esta sociedade do espetáculo e da sensação é definida pela satisfação imediata a partir do bombardeamento de imagens chamativas, que atraem e prendem a percepção das pessoas. Todos são metralhados com informações em um ritmo sem pausa que não permite a mínima reflexão. As pessoas seguem entorpecidas tendo suas vidas definidas como uma não-vida automatizada pelos algoritmos. Afinal, segundo mostra Martha Gabriel, em seu livro Eu, você e os robôs (Editora Atlas), em apenas 60 segundos na internet, 156 milhões de e-mails são enviados, quase 7 milhões de fotos são compartilhadas no Snapchat, mais de 29 milhões de mensagens são trocadas pelo WhatsApp, 350 mil tweets são disparados e quase 900 mil logins acontecem no Facebook – e olhe que são dados de 2018. Tais ações não seriam possíveis sem os algoritmos.

Neste contexto, entre alguns exemplos de maior repercussão das fake news, podemos citar a eleição de Donald Trump nos EUA, ou ainda, para termos uma noção de que não se trata de algo restrito ao ocidente, temos o exemplo de uma terrível situação ocorrida na Índia, o maior mercado do Whatsapp, com aproximadamente 200 milhões de usuários indianos, e onde a circulação de notícias falsas provocou uma onda de linchamentos resultando em 18 mortes entre abril e julho de 2018. Segundo matéria publicada pela Folha de São Paulo[1] em agosto desse mesmo ano, a polícia diz que está difícil convencer as pessoas de que são notícias falsas, e cada vez mais crescem os casos como o da jovem Shantadevi Nath, que foi morta por uma multidão que, com base em fake news, acreditava ser ela uma sequestradora de crianças. Também um rapaz chamado Kaalu, que estava à procura de emprego, acabou sendo morto após ser apontado como sequestrador por um vídeo que circulou no Whatsapp. Até mesmo um funcionário do governo indiano, incumbido de ir a vilarejos dispersar rumores espalhados pelas redes sociais, foi linchado até a morte no estado de Tipura, região nordeste do país.

No Brasil, foi com as páginas da poderosa rede social denominada Facebook, que movimentos da “nova direita” lideraram a campanha pelo impeachment de Dilma Rousseff, criando canais de comunicação com a população. Este movimento passou a explorar e a alimentar seus seguidores, tanto com notícias da imprensa alternativa, como com novas formas de canalizar e amplificar os valores ideológicos de extrema direita nas suas campanhas políticas, sob uma movimentação social fortemente marcada pela lógica de fake news.

Também na movimentação dos caminhoneiros em maio de 2018 no Brasil, segundo a Folha de São Paulo[2], os milhares de grupos de Whatssapp criados durante as duas semanas da greve dos motoristas foram capazes de realizar uma mobilização rápida, pulverizada e abrangente como nunca vista antes, fortemente marcada pela difusão de notícias falsas. Após a mobilização, esses grupos se tornaram uma espécie de legado comunicacional ambicionado por várias candidaturas nas eleições brasileiras de 2018, o que também revelou em seguida que esse público estava, em grande parte, alinhado à campanha do capitão reformado do exército brasileiro e principal representante do avivamento neofascista no cenário político brasileiro.

II

Fenômenos como as fake news operam não apenas na falsificação da realidade, é bem mais complexo, se trata de uma forma de produção de realidade. As fake news produzem conteúdo que será vivenciado como a única realidade por muitos indivíduos. A determinação política está no fato de que tudo isso implica em consequências reais e concretas a partir das relações estabelecidas entre, de um lado, o conteúdo da vida social, e de outro, a forma como este conteúdo é vivenciado social e politicamente, de maneira que favorece ideologicamente a ascensão desse neofascismo de massas. O destino político de países ou a vida privada de pessoas sofrem efeitos violentos e devastadores deste fenômeno que consiste inicialmente na veiculação digital de notícias falsas, mas que ao longo do processo adquire uma condição efetiva que passa a ser reconhecida e vivenciada pelas pessoas como algo real, à medida que viraliza enquanto uma verdade evidente e incontestável. Este viralizar consiste numa expressão digitalizada da substituição da razão pela lógica microfascista do ad hominem. A mentira que viraliza se estabelece a partir daquilo que define o próprio pensamento autoritário enquanto conduta categoricamente contrária a uma ética da pluralidade e da racionalidade na política. Como descreveu o filósofo Theodor Adorno, ao analisar o padrão da propaganda fascista, “A maioria esmagadora das declarações dos agitadores é dirigida ad hominem. Elas são baseadas mais em cálculos psicológicos que na intenção de conseguir seguidores por meio da expressão racional de objetivos racionais”.

O fenômeno das fake news é das expressões mais graves da era digital para a cultura política do século XXI, posto que essa versão digitalizada e algorítmica da mentira vivenciada como verdade, forma nas pessoas os seus próprios rituais sub-reptícios de verdade, modelando as subjetividades e conduzindo as condutas ideologicamente de modo que ameaça de morte a democracia. Com a conectividade global da internet, uma mentira, em sua virtualidade fictícia, após viralizada, passa a ser vivenciada como verdade, tornando-se capaz de produzir efeitos concretos sem mais limites espaciais ou temporais, como ocorria no velho mundo linear e aristotélico. Em suma, o destino das pessoas passa a ser determinado pela virtualidade da ficção vivenciada como real, e a vida em sociedade sob uma perspectiva ético-política, recrudesce a um estágio neoarcaico das passionalidades decorrentes do ódio como forma de vivenciar a política. Não há lugar para a razão e a pluralidade no mundo das fake news, pois o diálogo civilizado é substituído pela histérica cegueira do ad hominem.

III

O fluxo virtual das mídias digitais em ambientes como Facebook, Whatsapp, Twitter, entre outros, vem operando ideologicamente de modo a canalizar o fundo ideológico civil e autoritário decorrente da própria formação social microfascista brasileira para, em seguida, amplificar essa mentalidade política de modo a torna-la viral. Este processo contribui diretamente para o avanço da onda neofascista canalizada pelo bolsonarismo. A ligação entre as fake news e neofascismo brasileiro é real e produz implicações políticas concretas, apesar de ter na virtualidade da ciberesfera o seu principal conduto de proliferação ideológica; vide o caso atual do inquérito das fake news e sua ligação com o "gabinete do ódio" formado pela familícia dos Bolsonaro. Chegamos ao momento no qual ganha centralidade na arena política, o campo das estratégias e táticas digitais, no qual a direita neofascista tem demonstrado estar bem mais familiarizada do que a esquerda. No limite, toda essa situação demonstra que a própria democracia não estava preparada para a era digital.

Em todos estes exemplos supramencionados, ocorre que a forma ideologia atua determinada por uma mediação que está em seu código genético, mas que se expressa atualizada no século XXI sob a determinação dos bits e algoritmos digitais, a saber: o fato de que, na relação entre o conteúdo daquilo que se produz e a forma como este conteúdo é vivenciado pelos indivíduos, aprofunda-se um modo de ser baseado apenas no imediato e na naturalização da aparência materializada na imagem digital (fotos, vídeos, memes, etc.) sob a gestão algorítmica. Ainda mais do que antes, fica dispensada a racionalidade assentada na história e na formação social dos fenômenos que determinam a vida de uma sociedade; tudo é vivenciado apenas pela satisfação imediata e efêmera do aqui e agora digitalizado na era do espetáculo imagético enquanto aquilo que magnetiza a atenção por meio do chamativo. Não interessa mais a razão ou a análise crítica dos fatos, o que importa é a sensação enquanto busca frenética por novos estímulos nas redes sociais.

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